A Operação Regresso, deflagrada nesta sexta-feira (31) em Araçatuba e outros municípios do interior paulista, teve origem na análise de um telefone celular apreendido durante a Operação Ligações Perigosas, realizada em 2024. A senha do aparelho levou cerca de um ano para ser quebrada, e o conteúdo extraído ajudou as forças de segurança a identificar integrantes de setores estratégicos do Primeiro Comando da Capital (PCC).
Os detalhes foram apresentados durante coletiva de imprensa com o comandante do 12º Batalhão de Ações Especiais de Polícia (BAEP), tenente-coronel Antonio Lino Neto; o promotor de Justiça Rodrigo Alves Gonçalves, do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (GAECO); o delegado Juliano Albuquerque, do Núcleo Especializado de Combate à Criminalidade Organizada e à Lavagem de Dinheiro (NECCOLD); e o delegado divisionário da Divisão Especializada de Investigações Criminais (DEIC), Carlos Henrique Cotait.
A operação cumpriu 23 mandados de busca e apreensão e dez mandados de prisão contra 21 investigados, em diligências realizadas em Araçatuba, Birigui, Penápolis, Lins, Tarumã e Teodoro Sampaio. Além das dez pessoas presas por meio dos mandados, outras três foram detidas em flagrante.
Dinheiro, drogas, celulares, computadores e outros materiais foram apreendidos. Os entorpecentes ainda estavam sendo contabilizados no momento da coletiva. Conforme as autoridades, aproximadamente R$ 17 mil foram localizados durante as buscas.
Primeira operação do novo grupo integrado
Segundo o promotor Rodrigo Alves Gonçalves, a Operação Regresso marca a primeira grande ação realizada após a instalação do NECCOLD em Araçatuba e inaugura um novo modelo de atuação integrada contra organizações criminosas e a lavagem de dinheiro.
“Essa é a primeira operação oficial desse grupo integrado. Praticamente agora, as grandes operações da cidade envolvendo organização criminosa e lavagem de capitais serão feitas conjuntamente pelo GAECO, pelo NECCOLD e com o apoio operacional da Polícia Militar”, afirmou.
O NECCOLD foi criado para atuar de maneira especializada em investigações mais complexas, especialmente aquelas relacionadas a organizações criminosas e à movimentação de valores obtidos ilegalmente.
De acordo com o promotor, a atuação conjunta entre Polícia Civil, Ministério Público e Polícia Militar deverá se repetir em novas investigações na região.
Celular apreendido deu origem à investigação
Os delegados Juliano Albuquerque e Carlos Henrique Cotait explicaram que o ponto de partida foi um celular apreendido durante a Operação Ligações Perigosas, realizada em setembro de 2024.
O aparelho pertencia a um investigado ligado ao PCC e permaneceu aproximadamente um ano em processo de extração, até que a senha fosse quebrada. A análise do conteúdo, somada a outras informações de inteligência, permitiu identificar integrantes da chamada “Sintonia do Progresso”.
“Quando esse celular voltou para análise, em razão dessas informações e de outras, a investigação passou para o NECCOLD, junto com a Polícia Militar, porque a Polícia Militar detém informações com relação ao PCC e está sempre monitorando a facção”, explicou Cotait.
A investigação mais recente durou aproximadamente quatro meses e foi conduzida pelo NECCOLD e pelo GAECO, com o apoio da Polícia Militar.
Tráfico e disciplina
Segundo as autoridades, a Operação Regresso reúne duas frentes de investigação. Uma delas apura a atuação da Sintonia do Progresso na região de DDD 18. Esse setor seria responsável por administrar pontos de venda, distribuição e comercialização de drogas vinculados ao PCC.
A outra investigação envolve integrantes ligados à chamada Sintonia Disciplina, responsável por impor normas internas da facção e aplicar punições.
Durante as apurações, foram identificadas tratativas para coagir testemunhas, conduzir pessoas aos chamados tribunais do crime e intervir em situações relacionadas à violência doméstica, a furtos e a outros delitos.
“Já detectamos tratativas para coagir testemunhas que atuaram em inquérito policial, condução de integrante ao chamado tribunal do crime e questões relacionadas à violência doméstica, furto e outros casos”, afirmou Albuquerque.
Segundo ele, a investigação também teve caráter preventivo e impediu que novos crimes fossem praticados contra pessoas que, em alguns casos, não possuíam qualquer relação com a criminalidade.
“Além de tudo, evitamos crimes contra pessoas de bem, que às vezes não têm envolvimento nenhum com o crime”, disse.
Lideranças e administração do tráfico
As autoridades afirmaram que os presos são apontados como integrantes do PCC e que algumas das principais lideranças da Sintonia do Progresso na região estavam entre os alvos.
Um dos homens presos em Penápolis também faria parte da chamada Geral da FM do Paraná, setor que, de acordo com a investigação, tem a função de administrar pontos de venda de drogas ligados à facção naquele estado.
“É um setor que tem a finalidade de administrar as bocas de fumo vinculadas ao PCC”, explicou o delegado Juliano Albuquerque.
O promotor Rodrigo Alves Gonçalves acrescentou que Araçatuba possuía integrantes de alta importância dentro da estrutura investigada.
“A Sintonia do Progresso é uma sintonia muito forte e importante para o Primeiro Comando da Capital. É um dos setores mais importantes e tinha altíssimas lideranças na cidade. Ainda deve ter, possivelmente, mas isso pode ser objeto de uma próxima fase”, afirmou.
Homem morto durante a operação
Durante o cumprimento de um mandado de busca em Penápolis, um homem morreu após uma troca de tiros com policiais do BAEP.
De acordo com as informações apresentadas na coletiva, ele não era considerado liderança do grupo, mas aparecia na investigação por ter adquirido uma arma de fogo para um integrante do PCC que se encontra preso.
O investigado possuía antecedentes por crimes como tentativa de homicídio, tráfico de drogas, porte de arma e roubo. Ele também já havia sido preso e investigado outras vezes.
“Liderança eu não diria, mas ele era envolvido. Ele não tinha liderança nesse grupo que estamos investigando”, afirmou Gonçalves.
Segundo a versão apresentada pelas autoridades, os policiais se identificaram ao entrar no imóvel, mas o homem teria saído com uma arma e efetuado um disparo contra a equipe. Os agentes revidaram.
“Uma das armas que buscávamos com ele, que ele comprou de uma liderança do PCC, foi justamente a arma que estava na mão dele quando trocou tiros”, disse o delegado Cotait.
O comandante do BAEP, tenente-coronel Antonio Lino Neto, afirmou que a ocorrência será apurada e que os procedimentos legais foram adotados pela Polícia Militar, pela Polícia Civil e pela perícia.
“A ocorrência está sendo apurada. Todos os procedimentos estão sendo tomados por parte da Polícia Militar, da Polícia Civil e da perícia”, declarou.
Araçatuba como ponto estratégico
O promotor do GAECO afirmou que a criação do NECCOLD e o fortalecimento da atuação integrada representam uma mudança de paradigma no combate ao crime organizado em Araçatuba.
Segundo ele, a cidade vinha sendo tratada historicamente como uma região de criminalidade média, mas as investigações demonstraram que sua localização favorece a logística das organizações criminosas.
“Araçatuba sempre foi vista como um local de criminalidade média, e nós podemos confirmar que não. Se você não sufocar legalmente esses grupos, o crime vai se fortalecer de um jeito que você não consegue retroceder depois”, afirmou.
Gonçalves citou as rodovias que cortam a região e as ligações de investigados com Mato Grosso do Sul e Paraná como fatores que tornam Araçatuba um ponto estratégico.
“A criminalidade não tem competência territorial fixada. Araçatuba estava se tornando um local hostil e, ao mesmo tempo, bom para esse tipo de prática de crime organizado”, disse.
Para Gonçalves, a instalação do NECCOLD em Araçatuba não ocorreu de forma aleatória, mas com base em estudos que apontavam o crescimento da atuação criminosa na região.
“Esse grupo veio justamente para esse combate. Acredito que a operação assustou um pouco, que era o que a gente também queria. Tínhamos certeza de que isso estava acontecendo e crescendo, e conseguimos podar de novo”, declarou.
Queda nos homicídios
Durante a coletiva, as autoridades também relacionaram a redução dos homicídios na região ao trabalho integrado realizado desde operações anteriores.
Segundo o delegado Carlos Henrique Cotait, a retirada de integrantes da facção de circulação diminuiu disputas e evitou mortes.
“Essas rivalidades naturalmente diminuem. Muitos homicídios foram evitados por conta de tirarmos integrantes do PCC de circulação, não tenha dúvida disso”, afirmou.
Ele acrescentou que a Divisão Especializada de Investigações Criminais (DEIC) segue apurando os homicídios registrados e buscando esclarecer os casos.
Novas fases
Os celulares, computadores e demais materiais apreendidos passarão por perícia e poderão revelar outros integrantes e atividades da organização criminosa.
Segundo o promotor Rodrigo Alves Gonçalves, o grupo investigado possui capacidade de renovação, com a substituição de integrantes presos por outras pessoas dentro da estrutura da facção.
“O crime troca o seu peão e se renova. E a gente está aqui de novo combatendo, e assim será”, afirmou.
O promotor também adiantou que a integração entre as forças de segurança deverá resultar em outras operações.
“Esse grupo aqui eu posso garantir que esta é a primeira coletiva de muitas”, concluiu.






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