A história da pequena Laís Machado Celoni, que morreu aos três anos após sofrer uma hemorragia cerebral, passou a dar nome a uma lei de incentivo à doação de órgãos e tecidos em Araçatuba. A legislação foi apresentada oficialmente nesta quinta-feira (24), durante uma cerimônia na Prefeitura, com a presença da família da menina, representantes da Santa Casa e autoridades municipais.
A Lei Laís Machado Celoni institui o Dia Municipal de Incentivo à Doação de Órgãos e Tecidos. A data será celebrada anualmente em 27 de setembro, mesmo dia do Dia Nacional da Doação de Órgãos.
Laís morreu no ano passado. Segundo a mãe, Aline Machado Celoni, a menina apresentou uma forte dor de cabeça. Quando recebeu atendimento médico, exames constataram uma extensa hemorragia cerebral. Em seguida, o quadro se agravou até a confirmação da morte encefálica.
Nesse momento, Aline e o marido, João, receberam informações sobre a possibilidade de doar os órgãos da filha. Até então, o casal nunca havia conversado sobre o assunto.
“Meu esposo e eu olhamos um para o outro e a gente decidiu que sobre a morte a gente não conseguia fazer nada, mas a gente poderia levar a vida, levar a esperança para outra criança. Isso representa muito a Laís. A Laís gostava muito de viver, de brincar. Então foi aí que a gente decidiu falar sim”, contou Aline.
Conversa dentro de casa
Um dos principais objetivos da nova legislação é justamente estimular as famílias a conversarem sobre a intenção de doar órgãos.
Além disso, a lei prevê ações de conscientização, divulgação de informações sobre o tema e campanhas educativas. Também incentiva a cooperação entre poder público, hospitais e outras instituições, além de iniciativas de acolhimento às famílias doadoras.
Para Aline, falar sobre o assunto antecipadamente pode ajudar famílias que, no futuro, precisem tomar uma decisão semelhante.
“É muito difícil a gente tomar essa decisão quando está num momento de muita dor, porque já são muitas decisões a serem tomadas. Então eu gostaria de falar que as pessoas conversem”, afirmou.
Santa Casa realizou 162 captações em 11 anos
Referência em alta complexidade para 40 municípios da região, a Santa Casa de Araçatuba mantém uma equipe especializada no processo de doação de órgãos e tecidos.
Nos últimos 11 anos, a instituição realizou 462 protocolos de morte encefálica, que resultaram em 162 captações efetivas. Nesse período, 358 órgãos foram destinados a transplantes, sendo 238 rins, 90 fígados, 18 corações e seis pulmões.
O trabalho começa com a identificação de potenciais doadores e inclui os procedimentos para confirmação da morte encefálica. Além disso, a equipe atua no acolhimento e na entrevista com os familiares.
Segundo o provedor da Santa Casa, Everton Santos, a abordagem humanizada é fundamental durante todo o processo.
“A questão que faz toda a diferença é o trabalho na humanização, no acolhimento e na conscientização das pessoas. Os familiares podem manifestar antecipadamente que têm o desejo de ser doadores de órgãos, porque, quando vamos abordar a família, isso fica mais fácil”, explicou.
Recentemente, a equipe hospitalar de doação para transplantes da Santa Casa recebeu uma certificação da Central Estadual de Transplantes de São Paulo pelo trabalho desenvolvido na busca ativa, notificação e captação de órgãos e tecidos.
Lei leva história de Laís adiante
A legislação também permite a realização de campanhas, palestras, seminários e outras atividades educativas, especialmente durante o mês de setembro.
Segundo o prefeito Lucas Zanatta, Araçatuba já possuía outras leis relacionadas à doação. No entanto, a nova legislação busca integrar e ampliar as iniciativas.
“Era necessária uma lei completa, abrangendo todos os aspectos necessários para a promoção da doação de órgãos aqui em Araçatuba”, afirmou.
Durante a cerimônia, a história de Laís também esteve presente nos detalhes. Em uma árvore simbólica com galhos secos, a primeira folha colocada trazia uma palavra escrita pela própria menina: “amor”.
Aline também cantou uma música dedicada à filha durante o evento. Para a mãe, a homenagem permite que Laís seja lembrada não apenas pela perda, mas pelo gesto que surgiu em meio à despedida.
“Meu coração está radiante, porque a gente consegue lembrar da Laís em todo esse evento, não só pela perda, mas pela vida que ela trouxe através dos seus órgãos”, disse.
Agora, a mãe espera que a história da filha ajude outras pessoas a compreender a importância da doação.
“Olhem a minha história, olhem aquelas pessoas que se encontram no hospital. Tem pessoas que praticamente moram dentro do hospital e precisam de uma doação de alguém que nem conhecem, que fale sim para elas.”






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